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O ESPÍRITO DA NATUREZA

Por Lokasaksi Dasa

Uma análise sobre a ecologia e o plano espiritual, sobre a ação correta do homem e sua reintegração na liberdade da transcendência. O enigma da relação entre Deus, o homem e a Natureza são resolvidos através da metafísica de Sri Caitanya, a inconcebível unidade e dualidade simultâneas.*

Basta assistir ao noticiário da TV e dar uma olhada nos jornais e revistas para entender que os desastres ambientais constituem um grave problema e uma série ameaça. Um olhar mais atento nos faz entender que esse é um velho problema que vem assolando a Humanidade.

Desde que o homem passou a acreditar que podia ser o senhor da Terra e da Natureza, quis, consequentemente, dominar e destruir o que fosse desprovido de vida e alma. Quem pensa que é Deus e uno com Deus tem direito a destruir o que não é igual a ele. O dualismo cartesiano do ocidente separa Deus, Humanidade e Natureza.

Esse tema foi objeto de estudo do artigo “Espírito do Meio Ambiente”, publicado no livro “Conhecimento Antigo para Ignorância Moderna”, de Thomas Beaudry [1]. O artigo serviu como referência para reflexão do assunto em questão.

Enquanto o Brasil estava sendo descoberto e a Europa vivia o Renascimento, a cultura védica era revista na Índia através da filosofia Bhagavata, na pessoa de Caitanya, que encontra perfeita harmonia entre o homem, a Natureza e um Deus pessoal.

Essa filosofia apresenta o princípio de que somos simultaneamente iguais e diferentes de Deus. Assim quando a alma individual se ajusta com a Divindade, a natureza material vem em sua ajuda, pois ambas foram feitas para o serviço de sua fonte, a Divindade.

Na ânsia de subordinar a Terra inteira a propósitos humanos triviais e exagerados, o consumismo com o qual convivemos constitui-se de patologias culturais que há muito foram aceitas como nosso padrão normal de comportamento.

As patologias consumistas que levam à destruição dos sistemas de vida da Terra são modelos aceitáveis de comportamento humano. Pior que isso, se tornaram necessidades básicas e imprescindíveis para o perfeito funcionamento de nossas instituições sociais e econômicas.

É um fato que a desintegração do planeta está diretamente relacionada à desintegração da personalidade humana, que já levou também a uma desintegração da ordem social. Criou-se praticamente uma dependência que não conhece limites. A destruição da Terra por propósitos humanos também não conhece limites. Devemos, portanto, buscar compreender o que levou a Humanidade a este estado.

Apesar de suas preocupações voltadas à paz e à justiça dos seres humanos, as instituições religiosas do mundo ocidental não têm dado a devida importância ao destino da Terra. Consequentemente essa postura impossibilitaria qualquer tipo de preocupação quanto à paz e à justiça nas relações entre os seres humanos e a Terra. De acordo com essa teoria, tudo no céu e na Terra existe para puro proveito humano.

Isso remonta à nossa origem judaico-cristã, quando a teologia exorcista do cristianismo possibilitou ao homem explorar a Natureza numa atitude de indiferença aos sentimentos dos objetos naturais. Ela deu ao homem o monopólio da alma. Tudo no mundo era aceitável, mas apenas como a moldura no quadro da redenção humana. Essa forma de pensar chegou a tal extremo que num certo período da história até mesmo a mulher, a melhor metade do homem, foi considerada sem-alma.

Todas as restrições à exploração da Natureza desapareceram completamente quando a Igreja removeu os “espíritos” das árvores, das montanhas e dos mares. Com a aliança da ciência e tecnologia e as bênçãos da Igreja não havia mais limites para onde o homem podia ir.

Assim os constantes aperfeiçoamentos tecno-científicos sobre a Natureza, conseguidos nos dias de hoje, não são diferentes da sistemática caça às bruxas promovida pela Igreja na Idade Média. A destruição das florestas e dos rios, podemos então dizer, teve suas raízes na erradicação da idolatria.

Isso explica porque a tentativa do cristianismo de estabelecer uma ecologia franciscana não foi levada muito a sério, enquanto que a filosofia oriental encontrou seu lugar no seio da sociedade contemporânea.

Apesar de a filosofia oriental ter muito a oferecer àqueles que desejam uma espiritualidade sensível às questões ambientais, em muitos casos sua influência no ocidente importou numa mudança antagônica no pensamento espiritual – indo de um extremo ao outro.

Um bom exemplo disso é o movimento de ecologia profunda, que surgiu nos anos setenta e, utilizando a filosofia holística, bem popular no movimento da contracultura dos anos sessenta, tentou criar uma metafísica ambientalista.

Esse movimento influiu na formação dos partidos políticos hoje conhecidos como os “verdes”. Esse movimento foi considerado como espiritual por alguns de seus membros, que chegaram a considerá-lo sua própria religião. O filósofo Arne Naess se inspirou na filosofia oriental para criar a ideia básica do movimento e descartou o conceito de espiritualidade utilizado pela tradição religiosa ocidental. Com as adaptações que vêm sendo feitas de acordo com as necessidades de cada povo, a ecologia profunda tornou-se então uma espiritualidade sem alma e sem Deus.

Mas, visto que nossa crise ambiental é essencialmente uma crise espiritual, uma espiritualidade questionável não poderá oferecer a solução desejada. Portanto, a ecologia profunda pode não ser a solução espiritual para a crise ambiental.

Apesar de coincidir com um ponto pacífico que é o propósito de todos – o restabelecimento de um meio ambiente mais natural – a definição vaga de espiritualidade dos ecologistas profundos corre o risco de incorrer nos mesmos erros que nortearam a religião do Ocidente.

Sua justificativa em redefinir o espiritual é compreensível: a religião do Ocidente nos conduziu perigosamente para bem perto da destruição dos nossos ecossistemas. Os ecologistas profundos ajustam o espiritual para ter o direito de adotar um estilo de vida que não leve a Humanidade para o conflito com a Natureza. Indo além, seria uma espiritualidade na qual cada pessoa se identificaria com a Natureza e a Natureza com cada pessoa.

Os ecologistas profundos assimilaram o budismo por ser uma religião não-teísta e não-espiritual, que se recusa discutir sobre Deus e a alma. Citando Fritjof Capra: “Nosso budismo seria ecologicamente consciente”. Juntamente com o budismo, os verdes radicais adotaram também a visão da religião nativa americana e do xamanismo de outras partes do mundo, que para a religião do Ocidente seria algo primitivo e pagão.

Mas aí não encontramos uma análise espiritual mais profunda. Seria a nossa espiritualidade algo redutível a um ecossistema saudável? Capra apresenta bem essa ideia: “Consciência ecológica é uma consciência religiosa ou espiritual… a própria essência da consciência espiritual”.

Espiritualidade vai além de uma perspectiva de que os animais, plantas e até os objetos inanimados têm direito à vida e a um significado e valor além do que a sociedade humana lhes confere. Senão, a espiritualidade estaria circunscrita à Terra. Seria uma espiritualidade parecida com a adoração pagã da Natureza que o cristianismo no passado procurou abolir.

Essa tese encontra apoio em outra conhecida tese, “Hipótese de Gaia”, de James Lovelock. Isso é significativo porque a evolução darwiniana, que confronta com a ideia espiritual do caráter primário da consciência primário da consciência, é uma parte essencial da teoria de Gaia.

A origem dos movimentos radicais ecológicos é uma espiritualidade que de muitas formas é a antítese da religião ocidental tradicional, na qual o homem não é superior a Natureza, mas esta que lhe é superior.

Ecologia profunda estaria num extremo do espectro espiritual e o cristianismo moderno no outro, nenhum deles parece responder à necessidade do momento. Mas, sem dúvida alguma, a solução da crie ambiental é uma perspectiva espiritual correta.

A solução ideal é uma síntese, uma terceira ideia, que possa conciliar e evitar os extremos da religião tradicional ocidental, responsável pela devastação ambiental da Natureza, e da ecologia profunda, que procurando salvar a Natureza, aniquila a essência da alma.

“Olhemos para o Oriente”, sugere Thomas Beaudry, “deixemos de lado as filosofias niilistas (sunyavada) e impersonalista (nirvisesa) do budismo e do hinduísmo vedanta monista respectivamente, e olhemos o vedanta vaishnava da Sri Caitanya.

Os ensinamentos de Sri Caitanya nos oferecem alguns elementos da espiritualidade tradicional ocidental não existentes na ecologia profunda, e vice-versa. Seus ensinamentos também contêm conclusões diferentes dessas visões de mundo. Por exemplo, os ensinamentos de Sri Caitanya (assim como os do cristianismo) admitem a existência de um Deus pessoal, com o qual podemos nos unir em serviço e receber a Sua graça, sem nunca nos fundirmos nele (característica única do vaishnavismo dentro da espiritualidade oriental). Ao mesmo tempo, admite as doutrinas do karma, reencarnação, transcendência à dualidade (pontos em comum na espiritualidade oriental)”.

Diferentemente do cristianismo, a doutrina de Sri Caitanya não dá ao homem o monopólio da alma e respeita a Natureza com veneração, assim como o fazem os ecologistas profundos. Mas diferentemente tanto do cristianismo como dos ecologistas profundos, Sri Caitanya encontra perfeita harmonia entre o homem, a Natureza e um Deus pessoal.

Assim, portanto, mão devemos ficar tão ansiosos em nos livrar da velha definição de espiritualidade que postula transcendência à natureza material, distingue a matéria do espírito e afirma a realidade de um Deus pessoal.

Nem deveriam, os que se identificam com o cristianismo, temer tanto a espiritualidade oriental, que, como no caso do vaishnavismo, pode também abarcar o conceito da graça e do Deus pessoal. O mais provável é que o cristianismo moderno tenha utilizado erradamente essas ideias sublimes, enquanto que os outros identificaram-nas com o problema.

Responder ao chamado de transcendência à natureza material não é o mesmo que dominá-la, como afirmam os ecologistas profundos! Seria isso meramente uma expressão do ego machista? Seria um brado de dualidade Natureza versus Humanidade – os dois, um contra o outro?

Isso necessariamente conduziria ao colapso de nossos ecossistemas? Sim, se for erroneamente aplicado; como o foi pelo dualismo religioso do Ocidente. Não, se estivermos falando do dharma da alma, como nos mostra a escola Bhāgavata da Sri Caitanya.

Podemos traçar um paralelo entre o renascimento de bhakti (devoção) na Índia medieval e a Renascença ocorrida na Europa como o precursor da Revolução Industrial, da fusão formal de Deus com a razão e do divórcio entre o homem e a Natureza.

Enquanto no Renascimento europeu e desenvolvimentos tecno-científicos subsequentes foi selado o destino da humanidade declarando-se a guerra à Natureza, a tradição de bhakti trouxe-nos transcendência e harmonia com a Natureza. Que, felizmente, não foi obtido a custo da perda de nossa alma eterna e ego espiritual individual, fato que é o orgulho dos ecologistas profundos e de seus equivalentes religiosos, o budismo e o neo-paganismo.

Os sábios da cultura védica viam a natureza material à luz de sua origem espiritual original – a consciência. Assim, eles tratavam as árvores, montanhas, pedras e tudo mais com grande respeito.

E sua teologia não era primitiva nem supersticiosa. Eles percebiam que todas as manifestações materiais eram sombras do espiritual. Eles compreenderam que a base fundamental da realidade material é a consciência e que a consciência no fim é sempre pessoal.

Enquanto só podemos ver a sombra e aceitá-la erroneamente como a substância, eles podiam ver essa substância material como a sombra da verdadeira substância – a consciência.

Porque o pensamento cartesiano dualista do cristianismo é inaceitável para os ecologistas profundos, muitos fogem da individualidade e buscam abrigo no todo ou na unidade, refugiando-se na natureza material. Mas essa ênfase exclusiva na unidade cria um grande problema: elimina oportunidade de serviço, que Sri Caitanya definiu como o próprio dharma da alma.

A única forma de sustentar com lógica a noção equivocada da que somos Deus, que Deus é nós, e que somos a Natureza é descartar a trindade e estabelecer a unidade. Mas, nessa visão, o relacionamento (amor e serviço) será erroneamente relegado ao mundo da ilusão, da falsa-percepção.

Nesse caso o serviço seria parte da ilusão, não da realidade última. O potencial para o abuso da Natureza desaparece com a perda do eu, mas com isso também desaparece o potencial para o amor. Sem serviço, não haverá Deus para servir, não haverá servo e nem haverá amor.

Os grupos dos ecologistas profundos podem argumentar que a unidade almejada é a de um todo integrado onde a identidade das partes individuais é mantida em um sistema onde elas estão sistematicamente integradas (a natureza material). Ainda assim não sobraria lugar para o amor. Isso se torna apenas uma descrição de um processo da natureza material, que a ecologia profunda pensa que nós somos.

O dualismo cartesiano, por sua vez, separa Deus, a Humanidade e a Natureza, isolando a natureza material de sua origem espiritual. O preço dessa tentativa de conectar Deus e a Humanidade é a destruição do ambiente natural. Assim, a ênfase exclusiva é insatisfatória em qualquer um desses extremos polarizados, unidade ou diferença.

Enquanto o holismo (unidade) é uma demanda necessária para a nossa razão, o individualismo (diferença) é um fato inegável da nossa experiência. O enigma da relação entre Deus, o homem e a Natureza não poderão jamais ser resolvido sem a aceitação tanto da unidade como da diferença. Na verdade, tal síntese é a meta almejada pela filosofia. Ainda assim, apesar da combinação dos dois ser necessária, parece algo impossível ou inconcebível.

Inevitavelmente o teste final da lógica humana falha. O que é logicamente necessário, torna-se logicamente impossível. A metafísica de Sri Caitanya do acintya-bheda-abheda, “a inconcebível unidade e dualidade simultâneas”, resolve esse dilema.

Na Divindade não há conflito entre o que é necessário e o que é possível. Seu reino e compreensão completa da natureza da realidade encontram-se muito além dos limites da razão humana. A realidade, o que é necessário, na verdade é, pela potência inconcebível (acintya) da Divindade. A Humanidade é uma com Deus e a Natureza, e diferente deles simultaneamente.

A escola Bhāgavata (Vaishnava) distingue a alma da matéria, mas ainda assim considera ambas femininas – para-prakṛti e apara-prakṛti respectivamente. Ambas são energias do energético. Como o calor e a luz não são nada mais do que o próprio fogo, mas ainda assim simultaneamente diferentes do fogo, da mesma forma, as almas individuais e a matéria são iguais a Deus e diferentes Dele ao mesmo tempo. Nós somos diferentes em quantidade, porém, iguais em qualidade com Deus.

Podemos, pela graça dele, obter um estado perpétuo de unidade de propósito com Ele e nos elevarmos além da dualidade de bem e do mau criada pela percepção imperfeita dos sentidos.

Quando a alma individual se ajusta com a Divindade, a natureza material atua em se favor, pois ambas foram feitas para o serviço de sua fonte, a Divindade, ou o Purusha. Assim, em vez de uma fusão da Humanidade e da Natureza, elas se unem como empregadas do Purusha, a Divindade.

Thomas Beaudry conclui sua tese fazendo um apelo para irmos além do conceito que o homem é o senhor da Natureza, e ao mesmo tempo diferenciar a Humanidade – e toda a vida – da matéria e de Deus. No processo, a Natureza e os ecossistemas serão compreendidos e respeitados, pois a Natureza não é apenas um fato, ela tem seu valor próprio. A Natureza surge do plano espiritual da liberdade, do brahman, e a ação correta dentro da Natureza reintegra a alma individual na liberdade da transcendência.

“Sri Caitanya nos mostrou que, na dimensão causal mais fundamental, somente vigora a doce vontade de Krishna. Lá, todos os movimentos surgem do Seu divertimento. Deus, a cada movimento da Natureza, nos convida para brincar com Ele.

Sri Caitanya via a vontade transcendental de Krishna manifesta em todos os lugares. Tudo mais, ou qualquer outra visão, era para ele um quadro incompleto. Observar o mundo assim é descobrir uma harmonia superior na Natureza e em nossa alma”.

Apesar de a ecologia profunda naturalmente nos levar a uma mudança de consciência, se formos sérios em reparar os estragos causados na Natureza, ficaremos no máximo com isso – um ambiente natural.

Mas, por nos afastarmos da compreensão ocidental tradicional de espiritualidade, acaba-nos custando mais do que eventualmente poderíamos ganhar. O preço dessa desejável unidade com a Natureza são certos elementos essenciais da herança espiritual do Ocidente, que Beaudry classifica como verdade espirituais universais: a dignidade do ser humano como o tutor da Natureza e de outras espécies, uma percepção amorosa de Deus e a nossa alma eterna.

Sri Caitanya por sua vez invoca uma visão mais ampla, na qual todas as coisas, a Natureza, a Humanidade e Deus existem harmoniosamente. Enquanto os seguidores do movimento de ecologia profunda tentam ajustar e igualar espiritualidade com ecologia, a tradição religiosa ocidental não atribui espiritualidade alguma à Natureza.

A filosofia proposta por Sri Caitanya adequadamente ajusta o bom senso de tomar conta de nosso meio ambiente com o cultivo de nossa vida espiritual e devemos aprender a respeitar a Natureza se quisermos obter o nosso destino espiritual.

Se estivermos interessados numa espiritualidade que seja ecologicamente sensível, a doutrina de amor divino de Sri Caitanya é digna de ser considerada. Ela oferece a todos a esperança de uma vida não somente livre de sofrimento, mas plena de amor divino. Precisamos apenas mudar nosso ponto de vista para viver essa realidade, que a natureza material também deseja para nós.

Notas

*  Artigo publicado na revista: VEDA: visão contemporânea da milenar cultura védica. BBT: Pindamonhangaba 1996, p.11-18.

[1] Beaudry, Thomas (Tripurari Swami). Ancient Wisdom for Modern Ignorance, Eugene: Clarion Call Publishing, 1994.




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